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As Ruas Vazias e o Mundo Sem Nós

Foto do escritor: Ricardo R. G. AlbuquerqueRicardo R. G. Albuquerque

Alistair MacRobert/Unsplash

Recebi recentemente um vídeo com imagens de cidades ao redor do mundo, todas em quarentena, com animais passeando tranquilamente pelas ruas vazias. Numa delas, um elefante trotando pela rua na Índia faz um motorista abandonar sua motoneta de entregas, às pressas, como se o animal fosse um fiscal do isolamento social.


Não são imagens incomuns – o mínimo que se diz nas conversas é que nas últimas semanas todos os dias se parecem com uma sucessão de domingos. Mas os vídeos me fizeram lembrar do livro O Mundo Sem Nós, do jornalista Alan Weisman, uma obra reveladora sobre as pressões ambientais geradas pelas intervenções humanas – e as perigosas heranças deixadas por algumas delas.

ENGENHARIA E DEGRADAÇÃO

Nos primeiros capítulos, ele se dedica a descrever como seria o processo de degradação em nossas casas e em cidades inteiras caso os humanos desaparecessem subitamente. Muita coisa sobreviveria por bastante tempo, mas a ação dos elementos, a presença de animais e plantas por fim dominariam a paisagem.


Quem viu de perto a ação dos elementos sobre o ambiente urbano foram os primeiros profissionais que começaram a restabelecer as atividades em Varosha, região de hotéis de veraneio situada em Chipe. Em 1974, os prédios haviam sido abandonados devido à guerra entre gregos e turcos, permanecendo assim por cerca de 30 anos. Tanto tempo depois, os manequins das lojas ainda ostentavam roupas esfarrapadas num ambiente dominado por pombos e pelo misterioso mau cheiro das piscinas vazias.


Porém, nem sempre a natureza volta a ocupar aquilo que foi deixado de lado pelos humanos. Na Capadócia, imensas cidades subterrâneas subsistem abandonadas. Provavelmente por causa de invasores externos, as cidades são formadas por túneis que se estendem por quilômetros, com áreas facilmente identificáveis como vinícolas e cervejarias, túneis de comunicação e túneis de ventilação escondidos para evitar a identificação das entradas dos abrigos.

HERANÇAS HUMANAS

Prédios e construções abandonadas nem sempre são o principal exemplo da ação humana no ambiente, que pode gerar heranças duradouras. Produtos desenvolvidos pelo homem, como o plástico – o livro já falava em microplástico há mais de 15 anos –, são uma incógnita em termos de durabilidade e em seus efeitos ambientais a longo prazo.


Acredita-se que quase todo o plástico fabricado até hoje, que totaliza mais de 1 bilhão de toneladas, ainda se encontra por aí (e uma boa parte desse total vai para os oceanos). Os polímeros que o compõem são notavelmente resistentes e, mesmo quando o objetivo original se quebra, permanecem em partículas minúsculas que podem ser encontradas hoje em dia até mesmo no sal. Os especialistas, no entanto, acreditam que mais cedo ou mais tarde algum micróbio fará essa tarefa.


O Mundo Sem Humanos foi escrito na primeira metade dos anos 2000 a partir de uma matéria feita por Weisman sobre Chernobyl. O terrível acidente ocorrido em 1989 deixou uma vasta área interditada aos humanos, mas não a animais e plantas, que voltaram gradativamente a ocupar a região.


Mais complicada é a situação do lixo nuclear das centenas de usinas nucleares em funcionamento em todo o mundo. Elas produzem anualmente milhares de toneladas de resíduos que necessitam de um descarte cuidadoso. Nos Estados Unidos, essa estocagem é feita em locais como os domos de sal subterrâneos do estado do Novo México. Além de de combustível nuclear, objetos diversos contaminados com radiação, desde máquinas até partes de paredes, passando por blocos de material vitrificado.


Outra forma de ação humana permanente no ambiente é a extinção de espécies. Há especialistas, por exemplo, que acreditam que a chegada dos humanos resultou na extinção de toda a megafauna da América do Norte, há mais de 10 mil anos. Atualmente, a presença humana em ambientes selvagens também eleva o risco de extinção de espécies – assim como de disseminação de vírus e bactérias que, em seu estado natural, permaneceriam restritas a hospedeiros animais. Por sinal, a mais provável causa da atual pandemia de covid19, mais uma herança inesperada da humanidade para as futuras gerações.

(Publicado no LinkedIn em 27 de abril de 2020)

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